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Carta ao Banco Mundial sobre empréstimo ao BrasilMarch 5, 2009
Ilma. Sra. Pamela Cox Com cópia para:
Sr. Makhtar Diop, Diretor, Banco Mundial no Brasil Prezada Sra. Cox, Subscrevemos-lhe para manifestar nossa preocupação sobre o empréstimo que está sendo concedido pelo Banco Mundial ao governo brasileiro, denominado "Programmatic Environmental Sustainability Development Policy Loan Project (P095205)", tanto em relação ao montante quanto ao seu conteúdo e destinação. Em sua primeira fase, este empréstimo seria de US$ 1,3 bilhão, a ser ampliado em uma segunda fase para um total de US$ 2 bilhões. Durante a última década, o Banco Mundial outorgou ao governo brasileiro uma série de empréstimos de "assessoria técnica" (Environmental Sustainability Agenda Technical Assistance Project 7331-BR; Regulatory Power Sector Technical Assistance BRPE76977; Energy Sector Technical Assistance 4708-BR), além de empréstimos para "reforma de políticas" (Energy Sector Reform Loan 7120-BR - US$ 454 milhões). Estes empréstimos tiveram entre os seus objetivos o "mainstreaming" de considerações sócio-ambientais em diversos setores do governo, inclusive o Ministério de Minas e Energia (MME). Infelizmente, este objetivo nunca foi cumprido. Um exemplo ilustrativo do fracasso destes empréstimos em cumprir os objetivos divulgados é a falta de integração efetiva de assuntos sociais e ambientais no planejamento energético do País. As Avaliações Ambientais Estratégicas (AAE) que o MME e MMA fariam como condição do empréstimo "First Programmatic Reform Loan for Environmental Sustainability" (7256-BR, US$ 502,52 milhões) nunca foram realizadas, sendo rejeitadas unilateralmente pelo MME em favor de "avaliações integradas" em algumas Bacias Hidrográficas. Estes estudos não contribuem substancialmente à determinação de políticas para manejo da Bacia e as alternativas sociais e ambientais sustentáveis aos projetos de construção de hidrelétricas.
O Plano Decenal de Energia (PDE) - 2008-2017 é outro exemplo do descaso do MME na incorporação de considerações sociais e ambientais no planejamento energético. O Plano foi construído nos gabinetes governamentais e consultou somente as empresas do setor de energia. Claramente, o PDE dá prioridade à construção de 71 grandes hidrelétricas, com a expulsão involuntária de mais de 100.000 cidadãos brasileiros e a inundação de reservas indígenas e unidades de conservação. O Plano promove a construção de termoelétricas altamente poluentes à óleo, carvão mineral e gás, prevendo aumento de 172% nas emissões de gases do efeito estufa em 2017 com relação a 2008, equivalentes a 39,3 milhões de toneladas de CO2, e ainda a expansão dos projetos de agro-combustíveis, o que implicaria na expansão do cultivo de cana-de-açúcar em 7,5 milhões de hectares. As projeções de crescimento exponencial de demanda de energia são irreais, especialmente no contexto da crise econômica mundial, e não incorporam esforços coerentes de enfrentamento das mudanças climática. Medidas de eficiência energética recomendadas como prioridade em relatórios do Banco Mundial (Taylor et al. "Financing Energy Efficiency") e a diversificação de fontes alternativas de energia são relegadas ao futuro, assumindo um papel secundário, com a alegação de serem "caras" para o consumidor. Nos preocupam também os fortes indícios de que o novo empréstimo será destinado a garantir capital para o financiamento de grandes projetos de infra-estrutura, através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os empréstimos anunciados recentemente pelo BNDES incluem as hidrelétricas Santo Antonio e Jirau, no Rio Madeira na Amazônia brasileira, para os quais este Banco já assumiu compromissos de desembolsar mais de US$ 6 bilhões. Estes projetos representam um atentado contra a sustentabilidade: promovem a destruição da diversidade biológica; têm significativo impacto sócio-cultural; e podem trazer prejuízos econômicos ao Banco e aos fundos de trabalhadores que opera. Estes, como outros empreendimentos financiados pelo BNDES, colocam em risco os objetivos e compromissos assumidos pelo País internacionalmente, e internamente, no marco das políticas e ações relacionadas com as causas e efeitos do aquecimento global. Assim, pelas razões acima apresentadas, acreditamos que seria um erro a aprovação deste empréstimo. Por isso, reivindicamos que o Banco Mundial postergue a decisão sobre o mesmo até que ele seja submetido a uma ampla consulta com a sociedade brasileira. Atenciosamente,
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